Confesso que
na minha infância detestava ler. Creio que aos meninos é muito mais difícil a
fruição na leitura. Para falar a verdade, tenho pouca diferença com o aluno
atual. Era mais preguiçoso com a leitura e a escrita do que Macunaíma - "Ai, que preguiça..." E olha que não me
faltavam livros. Na estante de casa jazia a Série Vaga-Lume. Adorava, na
verdade, era ler com os olhos alheios. Quando dispunha de tempo, quem no-los lia era papai. Mas na maioria das
vezes, era a bisavó Eleonora a maior incentivadora. Era um a comédia vê-la ler.
O sofá da sala da casa velha de madeira do Parque Ibirapuera, em Tupã, era seu
trono. Exímia ledora, a bisa escolhia o livro a dedo. Era "Os Segredos de Taquara-Póca", de Francisco Marins.
Mineira que
era, tinha no sangue aquela verve da leitura, o sotaque que cheirava a café e a
entonação era como um leite morno: a combinação perfeita. Sentado no
sinteco que recobria o assoalho da sala, observava-a fazer caretas, praguejar
contra os vilões, enaltecer os honestos. De quando em quando, obedecendo aos
trechos genuinamente românticos, a bisa depositava
ao coração a mãozinha direita enrugada, cheia de sardas do tempo.
Era flexível
como convém ao artista de palco. Engrossava a voz, imitava os bichos, os
ruídos, as onomatopeias que surgiam pelo percurso. E eu, inconscientemente, sob
sensações inefáveis, mergulhava numa catarse profunda...
Mas nada é eterno nesta vida: ela se foi quando eu tinha 12. Sua partida significou-me um caminho a seguir. Grande parte de mim em sala de aula é minha bisavó. Estas reminiscências me perseguem como bons espectros. Por isso sou velho. Por isso sou arcaico. Mas quem não gosta de um cafezinho quente e de um leite tirado no dia, numa manhã outonal fresca como esta, que me faz tomar leite e relatar um saudoso passado?
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