Ler e
escrever é lutar contra gigantes e muitas vezes acabamo-nos gigantes ou anões
perto de nossas leituras, de nossas produções. É que ler é produzir um passado
fecundo para a posteridade. Gostoso é viver trajetos na leitura. Tenho, portanto, meus trajetos.
Apaixonar-me
por Clarice na juventude fez-me mergulhar num poço de introspecção. Quem me
resgatou foi uma plêiade com Drummond, Mário, Oswald e Bandeira. Absorto às
ideias de cá resolvi cruzar o mar, encontrei com um monte de Pessoas, dentre as quais, posso revelar
paixões sinceras por Álvaro, Ricardo e um camponês chamado Alberto. Mas
foi Alexander Search, que trocava cartas com um tal Fernando, que crescera
parte da infância em Durban (África do Sul), que me apresentou a ele numa Tabacaria,
cuja porta tinha suspensa uma cruz, insinuando a morte do dono, o Alves.
Fernando me puxou à rua, conheci um poeta com nome de Sá Carneiro. Atravessei a
Península Ibérica num cavalo voador e deixei os fantasmas Bocage, Eça, Antero,
Cesário. Mas ao passar pela fronteira arrumei um amor louco. Florbela Espanca
espancou-me com versos. Na conexão Madri-Paris peguei a máquina do tempo que me
teletransportou à época de Dom Quixote. A máquina louca do tempo ziguezagueando
na boemia das palavras fez-me encontrar com Dumas e Victor num bar. Mas
Mallarmé lançou-me um poema hermético para decifrar. Na esquina, um jovem de
olhos azuis chamado Rimboud apontou na direção de Londres e, através da máquina
do tempo, fui ter com Shakespeare. Na volta cruzei a Mancha rumo à Rússia, mas,
na Alemanha, um certo Fausto quis que eu fizesse um pacto com Mefistófeles.
Nada acertado. Dei-me com Tolstoi e Dostoievski numa Noite Branca. Com a
máquina do tempo pude conhecer Kafka metamorfoseado em barata. Deu dó. Na
Itália comi macarronada com Morávia e Umberto. Senti saudade da América e fui
viver com Neruda em Isla Negra.
Atravessei a Cordilheira dos Andes rumo ao Brasil. Fiz parada na Argentina, lá
estava Ferreira Gullar exilado escrevendo seu Poema Sujo. Mas foi no Uruguai
que comi buenas parrillas com
Mario Benedetti que me indicou as borboletas do Jardim de Mario Quintana.
Subi para Porto Alegre e conheci no Salgado Filho, prestes a tomar um
voo, Veríssimo e Scliar. Este ia ao Rio, o outro a São Paulo. Mais
adiante, cheguei numa noite escura e de névoa a Curitiba. Procurei pelo vampiro
que nunca dá as caras. Sequer um cemitério
de Elefantes encontrei. Apareceu-me um mestiço de polaco vestindo Quimono, levava bigode espesso e falava
sucinto e preciso como um Haicai. A inflação e o caos brasileiros fizeram-me
tomar novamente a máquina do tempo e viajar a Baltimore (USA). Poe escrevia,
lugubremente, O Corvo: Never More! Contei-lhe
sobre um futuro Dan Brown. Ele riu funestamente: “ganhará
muito dinheiro...”
Peguei um
voo direto ao Rio e encontrei um louco: era Lima Barreto bebendo cachaça e
conversando com Policarpo Quaresma em Tupi-guarani. Mas um jovem velho, mulato e
barbudo chamou-me a atenção. Seu nome era Machado. Tinha em seus livros vários
estudos sobre a alma do ser humano, inclusive a minha alma peregrina de viajar
por épocas. Só não era mais completo porque era humano. Li, reli, conversei com
ele, pouco entendi. Cheio de raiva, resolvi ser trash.
Vim tomar cerveja com um velho safado chamado Bukowski e fumar charuto com Álvares
e Byron.

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